
EXAME
A Cosan, maior produtora de açúcar e álcool do Brasil, vive uma situação agridoce. De um lado, a companhia é incensada pelos especialistas como uma das que mais se beneficiarão com o impulso do mercado mundial de etanol. De outro, não vê seu prestígio junto ao público se refletir em aumento de valor. Pelo contrário: apesar da euforia no mercado acionário brasileiro, as ações da Cosan apresentam neste ano a maior queda acumulada entre as 60 empresas que compõem o Ibovespa, principal índice da Bolsa de Valores de São Paulo. Até segunda-feira (4/6), a Cosan, que é listada no Novo Mercado, acumulava perdas de 16%, à frente da Natura (-11%), e da Aracruz (-10,1%). No mesmo período, o Ibovespa registrava alta de 19,72%, segundo a consultoria Economática.
Pioneira do setor sucroalcooleiro ao abrir capital em novembro de 2005, a Cosan conta com números financeiros positivos. Nos três trimestres de seu atual exercício fiscal (de 1º de maio de 2006 a 31 de janeiro de 2007), a empresa apresentou receita líquida de 2,923 bilhões de reais, 69% maior que os 1,730 bilhão do mesmo período do exercício anterior. O lucro líquido acumulado foi de 192,5 milhões de reais, ante prejuízo de 63,7 milhões no período anterior.
Etanol
Com esse cenário, as boas perspectivas de crescimento do consumo mundial de etanol pouco ajudam a conter as perdas dos papéis da Cosan. É verdade que os produtores brasileiros podem equilibrar a quantia de álcool e açúcar fornecidos de acordo com a demanda e os preços, mas a existência de contratos de longo prazo com os clientes limita a margem de manobra.
Além disso, o principal negócio da Cosan ainda é o açúcar. Nos três trimestres deste exercício fiscal, a receita com vendas de açúcar somaram 1,835 bilhão de reais, sendo 1,564 bilhão oriundos de exportações. As receitas com álcool somaram 916,4 milhões de reais – e maior parcela, 651,5 milhões, foi conseguida no mercado interno.
A Cosan não é a única do setor a ser castigada na Bovespa pela superprodução mundial de açúcar. A São Martinho, que lançou suas ações no mercado em fevereiro deste ano, acumula perdas de 9,48% nos últimos 30 dias.
O índice Dow Jones, referência da bolsa de Nova York, recuou 0,59 por cento, para 13.595 pontos. O termômetro de tecnologia Nasdaq caiu 0,27 por cento, para 2.611 pontos. O índice Standard & Poor's 500 teve desvalorização de 0,53 por cento, para 1.530 pontos. As perdas atingiram o mercado de forma ampla, com queda em 27 das 30 ações listadas no índice Dow Jones. O índice S&P 500 interrompeu uma série de 6 altas consecutivas.
Bernanke disse que a economia deve crescer de forma moderada nos próximos meses, no mesmo ritmo ou de modo um pouco mais lento. Ele alertou, porém, que os riscos de que o núcleo da inflação se mantenha elevado podem não ceder.
EUA dependem do alcool brasileiro
Os Estados Unidos continuarão consumindo o etanol brasileiro mesmo que consigam baratear e ampliar a produção local. De acordo com especialistas presentes no Ethanol Summit, encontro realizado em São Paulo nesta segunda-feira (4/6) para discutir os rumos globais do combustível, o investimento em tecnologia realizado pela indústria e pelo governo dos Estados Unidos não será capaz de reverter a liderança do biocombustível gerado a partir da cana-de-açúcar brasileira.
Os esforços americanos para desenvolver etanol a partir de palha de milho, palha de trigo, madeira e switch grass (variedade de grama) não conseguirão gerar álcool mais barato do que o que vem da cana brasileira. De acordo com as estimativas, o etanol de celulose que resultará desse trabalho chegará a um custo mínimo de 1,07 dólar por galão por volta de 2012 e estabilizará nesse patamar, enquanto o álcool da cana é feito hoje por um preço que fica entre 0,6 dólar e 0,8 dólar o galão. "A cana possui mais sacarose e sua produção tem mais volume por hectare". A comparação dos números mostra que o investimento em alternativas para a produção de etanol trará vantagens para os americanos – já que o etanol produzido no país hoje, a partir do grão do milho, custa cerca de 1,2 dólar por galão -, mas não tirará espaço do produto brasileiro, mais competitivo.
A grande extensão territorial dos Estados Unidos e a distância entre estados produtores e consumidores no país também gerarão custos logísticos aos americanos, o que constituirá um ponto positivo a favor do etanol brasileiro. E além disso, um mercado do tamanho dos Estados Unidos não será saciado pela produção interna, ainda que ela cresça nos próximos anos.
O crescimento da demanda por etanol se acelerará nos próximos anos, o que acabará derrubando as barreiras ao produto brasileiro hoje existentes no mercado americano. Em 2009, ao fim do governo Bush, a lei de subsídios agrícolas dos Estados Unidos vai ter de ser revista, e com certeza, eles reduzirão as tarifas protecionistas contra o etanol do Brasil. Em outros países, como o Japão, o mesmo deve acontecer principalmente por causa do custo competitivo da cana brasileira.